O Dia do Dragão
Texto inédito de Ely Britto

O imenso quadro luminoso informava que eram 21 horas de um dia quente de Novembro. A Avenida Paulista palpitava com carros apressados, nervosos seguindo para o descanso. Lá estava eu, esperando o sinal fechar para cruzar a avenida, tentando compreender o pedido enigmático do meu mestre; "No coração de uma grande metrópole, no centro de seu ponto mais movimentado, exatamente às nove horas da noite, tente encontrar o ponto de conexão entre o movimento dos homens, o movimento do Tao, e o movimento do céu."

Cresci em uma fazenda, acordando com o cantar dos galos, embalada pelo mugir de bois. Minha vida tem sido um desenrolar de acontecimentos marcados pelas mudanças na natureza. Janeiro era tempo de enchente, de ver o rio carregar a vida que se afogava em sua correnteza. Passava boi morto, passavam arvores, casas inteiras e de vez enquanto o corpo inchado de algum naufrago que ninguém ousava resgatar. Fevereiro era tempo de reza, agosto de empinar arraia. Maio era o mês das gudes e dos meninos matarem passarinhos com Badoque (estilingue). Era um mês triste porque os meninos matavam passarinhos.

Aquela falta de céu, aquela agitação da Avenida Paulista, chocava, batia na lembrança calma da cidade de onde eu vinha. As pessoas pareciam todas presas nas malhas da tela quadrada da novela das 8 que já tinham perdido. Meu Deus! Parecia que todos corriam e se zangavam porque perderam o capitulo de hoje.

Parada no sinal que teimava em permanecer vermelho, eu buscava uma réstia de céu através da brecha rasgada pela avenida. Não pude ver estrelas, o brilho excessivo das luzes e dos carros apagavam estrelas. Não via nuvens e sim, o embaçamento da cidade poluída. O espaço físico a minha volta mostrava claramente a dificuldade de perceber o que meu mestre sugerira, mas além do que a visão podia revelar, eu pressentia que o céu permanecia lá, onde sempre esteve, poderoso, límpido, acima da cidade que se escondia embaixo das nuvens escuras do desvario humano. Misterioso, profundo, o céu era parte de um infinito, acima de qualquer tentativa de escondê-lo....impenetrável . O movimento do céu poderia extinguir com um furacão, enchente ou catástrofe, toda a vida que ele mesmo havia criado. Aquela imensa avenida e tudo que nela vivia dependia da vontade do céu para continuar existindo.

As palavras do meu mestre vinham a minha mente; "O Céu ordena a Terra obedece. Sua força nunca é limitada por condições determinadas no espaço e por isso é concebida como movimento. O tempo é a base deste movimento. O poder do tempo e o poder de persistir no tempo pertencem ao céu. "
 

O sinal finalmente abre, atravesso a avenida, sento em um banco de jardim de onde posso observar todo movimento em volta. Reflito, busco a pista que me leve à solução do enigma. De repente toda realidade em torno de mim se fluidifica, minha imaginação ganha poder de destruir e construir realidades. Tudo se desmorona a minha volta, construções de concreto armado, Bancos, Instituições, lanchonetes, rodovias, carros, tudo cai, tudo parece ser engolido pelo tempo que a tudo corrompe e destrói. Por um instante a Avenida Paulista existe e no outro desaparece na dança dos eons que medem o tempo infinito. A fabulosa epopéia da modernidade e sua arquitetura rui, desmorona, e o tempo faz renascer, das vísceras de suas fundações: arvores, riachos, plantas e o pulsar da vida que retorna teimosa em seu ritmo harmonioso e constante. Um simples piscar de olhos do tempo infinito e tudo isto é devorado, e a natureza gloriosa ressurge do lôdo da insensatez humana.

Neste exato momento sinto o peso do trabalho humano, vejo um espaço cor de barro, vazio, onde antes havia uma metrópole. Quantos anos foram gastos para construir tudo isto? Quinhentos anos? O que significa isto diante do infinito? O poeta diz: "Deus quere, o homem sonha e a obra nasce". Milhões de mãos, séculos de trabalho constróem uma cidade como São Paulo. Quantas pessoas tiveram que sonhar para que se construísse uma cidade como esta? Tantas e tantas, e os que nela hoje vivem se esquecem.... E o começo? E o começo de tudo isto? Quem colocou a primeira pedra, e com ela iniciou o primeiro sonho? E o que havia antes do sonho?

O grande Dragão começa a vomitar fogo na cabeça dos homens. Uma idéia.....os homens de outros tempos estavam certos, o vôo do dragão é o poder de uma idéia que se concretiza. São Paulo era a manifestação de uma idéia louca de homens loucos que amam concreto armado. Ali, na Avenida Paulista, São Paulo era uma multidão de idéias concretizadas, literalmente falando. Quantos homens de inteligência notável tiveram que criar carros, luzes, engenharia, tecnologia para que esta cidade existisse. Se repente o homem se sente um deus, ele também cria mundos!! A responsabilidade de criador de mundo de repente se apossa do entusiasmo com que os meus olhos enxergam a Avenida Paulista. Este poder, como o do céu, também pode destruir.

Percebo como um lampejo a responsabilidade do uso do livre arbítrio. Olho novamente a Avenida Paulista e sinto uma enorme compaixão. Dentro de cada um daqueles imensos prédios iluminados, pessoas constróem o futuro, sacrificam o prazer da vida, dedicam o seu precioso e curto tempo a construir sonhos que não são seus, e que nunca sabem no que vão se tornar, mas continuam lá, concretizando sonhos de outros, e pior ainda: pensando que são os seus. Iludidas aceitam tudo, sem questionar as conseqüências do que estão criando. Onde poderia estar o Tao nisto tudo? O que o mestre quer que eu encontre aqui? Ainda cheia de idéias febris anoto no meu caderninho as etapas do desenvolvimento de uma idéia de acordo com o livro das mutações.

Fazes do desenvolvimento correto de uma idéia até a sua manifestação representado pelo vôo do Dragão:

Primeira etapa:
Dragão Oculto- representa o momento de gestação de uma idéia, a consciência humana ainda não pode perceber o seu poder criativo, é preciso aguardar não desperdiçando prematuramente suas energias tentando obter algo pela força.

Segunda etapa:
Dragão aparecendo no campo- Tomamos consciência do poder da idéia mas precisamos ainda analisa-la e avaliar as conseqüências do ato de concretiza-la.

Terceira etapa:
Avaliação da idéia- etapa de grande cautela e preocupação pois existe o perigo da ambição desmedida.

Quarta etapa-
Vôo hesitante e inicial do Dragão- este é momento da escolha; concretizamos ou não a idéia? Devemos faze-lo ou devemos seguir nosso princípios? Concretizamos esta idéia ou desistimos?

Quinta etapa-
Dragão voando nos céus- Concretizamos esta idéia e o sábio chinês nos diz: "As coisas que se harmonizam em tom, vibram em conjunto. As coisas que entre si têm afinidades em suas ess6encias mais intimas, atraem-se mutuamente. A água flui para o que é úmido, o fogo volta-se para o que é seco. Cada um segue o que lhe corresponde. "

Sexta etapa-
Dragão arrogante tentando voar muito alto- Falhamos na avaliação da idéia e nos colocamos contra a vida e a natureza. A força do céu interfere.....e destrói.

Neste exato momento começo a rir, a Avenida Paulista se torna a melhor piada que já ouvi!
Ri, ri tanto que caí direto dentro do Tao e percebi......

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